sábado, 10 de setembro de 2016

Artigo: Houve muitas garotas de progama mas nenhuma 

como Lúcia McCartney, por Zuenir Ventura


Conto de 1969 segue atual




RIO — E pensar que tudo já estava nos contos de Rubem Fonseca — o cotidiano violento das grandes cidades, o clima de guerra civil, os marginais, delegados, advogados, executivos e até garotas de programa, como essa atualíssima Lúcia McCartney, de 1969, apresentada de maneira inovadora, incorporando recursos gráficos que lembram a poesia concreta. Inteligente, leitora de Fernando Pessoa e Kafka, liberada e assumida sem culpa (não vê “nada de errado” no que faz), ela deve obter sucesso também na televisão, a julgar pela direção e o elenco da série, porque é uma espécie de arquétipo das Brunas Surfistinhas que se afirmaram como celebridades nestes anos 2000, dando status a uma antiga atividade de má reputação, socialmente estigmatizada desde que o mundo é mundo. Nem Maria Madalena escapou da infame suspeita.

As histórias do nosso genial contista transitam entre os extremos da sociedade, do submundo ao jet set, da margem ao centro do sistema, o que levou o crítico Boris Schnaiderman a chamá-las de “vozes de barbárie e vozes de cultura”, que se alternam conforme o nível social de personagens que parecem retirados da realidade. Só mesmo o mistério da grande arte explica o milagre de um tema tornar-se banal, mas sua narrativa permanecer como novidade, mantendo a capacidade de produzir um renovado prazer estético.

Com um estilo ao mesmo tempo “brutalista” (Alfredo Bosi) e culto, cosmopolita, mas sem perder a cor local, Rubem Fonseca criou uma literatura noir de antecipação que foi recebida com entusiasmo pela crítica e pelos leitores, mas não pelo poder vigente, o regime militar. Seu “Feliz Ano Novo” foi alvo da ira oficial, tendo sido proibido de 1976 até 1985, quando só então o autor conseguiu a liberação do livro na Justiça. É curioso observar que a “matéria contrária à moral e aos bons costumes’’ que justificou a apreensão e o banimento da obra é um lugar-comum que hoje frequenta rotineiramente as páginas dos jornais.

“Lúcia McCartney” reúne 18 contos, além do que dá título ao livro, que valem a pena ser lidos ou relidos, porque ainda causam impacto pelo realismo e a originalidade com que abordam diversos temas. Um deles, por exemplo, “Desempenho”, se passa num ringue de vale-tudo, durante uma luta que acompanhamos pela voz de um dos lutadores, que narra em detalhe lances como “joelhada no estômago”, “pontapé no joelho”, “tapa na cara”, com a fidelidade de quem conhece o metiê. Aliás, há quem atribua a verossimilhança alcançada pela literatura de Rubem Fonseca à vivência do autor, que já exerceu a advocacia, foi comissário de polícia, executivo e até boxeador, daí sua expertise na construção de personagens e situações. Isso, porém, não explica tudo. Ao contrário de Gustave Flaubert respondendo aos juízes — “Madame Bovary sou eu” — Lúcia McCartney não é Rubem Fonseca. E mesmo que fosse, isso não seria suficiente para lhe garantir excelência literária. Não é com experiência de vida que se faz boa literatura, mas com a maneira de narrá-la.
Antes e depois de Lúcia McCartney houve muitas garotas de programa, mas nenhuma como ela.

FONTE: O GLOBO

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